• Clarissa Ferreira

Nossa incrível expedição pelas ilhas remotas de Palawan, Filipinas


"Não se trata de um booze cruise, tampouco de um retiro de yoga", esclareceu o líder da expedição ao grupo de vinte estrangeiros reunidos para o briefing na véspera da tão aguardada viagem. Na sede da TAO Phillipines em Corón, recebíamos ansiosos as instruções de como seriam os próximos cinco dias a bordo do barco Emerson 7 e nos acampamentos onde iríamos pernoitar. É engraçado lembrar daqueles instantes quando ainda éramos meros desconhecidos se entreolhando em silêncio, quase encabulados, agora que nos despedimos, dias depois, com tristeza e promessas de reencontros pelo mundo, em um restaurante em El Nido. Se voltaremos a nos ver, só o tempo dirá, mas a convivência intensa a bordo nos fez compartilhar uma experiência de viagem que nenhum de nós será capaz de esquecer.

O TAO é muito mais do que do que uma agência de viagens de aventura que leva turistas a belas praias nas Filipinas. É um projeto social que visa preservar as ilhas mais remotas de Palawan e dar apoio às comunidades locais, empoderando mulheres, educando crianças, treinando e gerando emprego para quase 300 pessoas. O briefing na véspera do embarque serve justamente para apresentar as diferentes faces do projeto, administrar expectativas e ajudar os visitantes a terem uma experiência culturalmente enriquecedora e divertida ao mesmo tempo. Aliás, não restam dúvidas quanto à parte da diversão quando somos orientados a fazer nossas encomendas de cerveja, rum e outras bebidas antes de deixar a sede rumo ao hotel para uma última noite de sono entre quatro paredes.

(FOTO: Clarissa Ferreira | Palawan, Filipinas)

Na manhã seguinte, todos se apresentam ao pequeno porto de Corón sem atrasos. O barco Emerson 7, um tradicional bangka boat filipino, parece pequeno ao longe, mas comporta confortavelmente nosso grupo de vinte pessoas de diversas nacionalidades, com idades entre 20 e 50 anos. Nos acomodamos ainda com cerimônia na mesa comprida que seria palco de muita conversa, risadas e refeições de lamber os beiços. Harry, o cachorrinho mascote da expedição, corria pelo deque fazendo novos amigos, animado com os dias no mar. Antes de partir, vemos um a um, todos os nove membros da tripulação, do mecânico ao capitão, se apresentarem e nos darem as boas-vindas, mesmo que com algumas poucas palavras em inglês. O gesto simples que encheu o barco de sorrisos também serviu para mostrar que a palavra de ordem dali pra frente seria "integração". Como o próprio site da empresa descreve, mais do que uma viagem, esta será uma experiência social.

(FOTO: Clarissa Ferreira | Harry, the seadog)

O trajeto da expedição é imprevisível e traçado dia a dia de acordo com as condições do tempo. São ao todo 16 acampamentos base prontos para receber turistas e tripulação, cada um com suas características individuais que são uma atração à parte. Ao longo das quatro noites, pernoitamos nas areias de praias desertas, em mata fechada nas encostas de uma ilha com ares de filmes de aventura e também próximos a uma pequena comunidade pesqueira. Em comum os acampamentos possuem as tuka huts, estruturas de bambu que podem abrigar até duas pessoas com seus respectivos colchonetes, travesseiros e mosquiteiros, resultado de mais um importante projeto do TAO, que, além de empregar pescadores locais com experiência em construção de barcos para o serviço de carpintaria também estimula a utilização de material sustentável plantado localmente.

(Para mais dicas e inspiração, assista "Episódio Praias na Tailândia")

O primeiro dia de viagem passa vagarosamente assim como os seguintes. Intercalamos mergulhos em águas cristalinas e snorkeling em corais intocados e extremamente saudáveis com algumas horas de navegação embaladas com muito papo e cerveja (sempre) gelada. A primeira refeição a bordo mostrou o que esperar dali pra frente no quesito gastronomia, deixando até mesmo os mais exigentes com o estômago satisfeito. Na mesa e nos pratos de todo mundo, frutos do mar frescos preparados com competência, peixe, salada crua, legumes cozidos, arroz. Dali em diante, as refeições foram aguardadas com muita expectativa e o chef não decepcionou, trazendo sempre cardápios criativos, saborosos e frescos. Do café da manhã ao jantar, passando pelos lanchinhos da tarde, nenhuma comida enlatada ou industrializada foi servida, apenas alimentos locais produzidos organicamente na fazenda TAO.

(FOTOS: Clarissa Ferreira | Refeições do expedição)

Nos despedimos do primeiro dia de expedição com um belíssimo por do sol no acampamento acompanhados de jungle juice (rum filipino com suco de abacaxi) geladinho, ritual que repetimos todas as tardes até o fim da viagem. Atrás de nós, já subia a lua, cheia e brilhante, lembrando de que para a noite seguinte era esperada uma supermoon. Com o céu claro do luar encaramos o primeiro banho de balde com água fria, o que, depois de um dia de sol escaldante, foi muito bem-vindo. O processo é rápido por conta da fila que se forma na frente do banheiro de bambu coletivo e também dos mosquitos que começam a rondar. Aos poucos, a turma vai se juntando próxima a mesa de jantar e, com muito papo e cerveja, aguarda mais uma refeição deliciosa. Às dez da noite, o silêncio já impera no acampamento, com todos dormindo exaustos e felizes ao som das ondas.

(FOTOS: Clarissa Ferreira | tuka huts nos acampamentos)

Com o passar dos dias, perdemos a noção da hora. Com os primeiros raios de sol despontando no acampamento, muitos já estão de pé com uma xícara de café na mão, sem se dar conta de que ainda não são nem seis e meia da manhã. Ninguém tem pressa para embarcar e as manhãs se arrastam entre mergulhos nas águas calmas e cristalinas da praia, vôlei na areia, caminhadas, frutas e mais conversas. O itinerário da expedição vai sendo cumprido pouco a pouco, com paradas em ilhas remotas belíssimas, fazendo snorkel em naufrágios da Segunda Guerra, explorando cavernas escondidas, conhecendo lagoas azul turquesa de caiaque, pescando no barco. Em algumas ocasiões, desembarcamos para conhecer alguns projetos TAO, como uma linda escola de bambu, um centro de treinamento para a Associação de Mulheres e, é claro, a fazenda base de todo o projeto.

(FOTO: André Garcia | Snorkel em uma naufrágio da Segunda Guerra)

(Leia também: "Koh Lipe, o paraíso quase escondido da Tailândia")

No dia que iríamos conhecer a fazenda TAO, um inesperado visitante apareceu no nosso barco: um leitão gorducho e barulhento que sugeria que o cardápio do dia não seria peixe… "Nós aqui nas ilhas produzimos nossa própria comida e matamos nossos próprios animais. Acredito que todos devam conhecer de onde vem a carne que consumimos." disse o líder da expedição, Jimboy. Apesar do desconforto de compartilhar algumas horas da viagem com a próxima refeição, ele estava absolutamente certo. Uma vez na fazenda, fomos apresentados à head chef que treina todos os cozinheiros que embarcam nas expedições e tivemos o prazer de acompanhar o preparo do nosso almoço e degustar uma refeição impecável. A certa altura, Jimboy avisa: "Vamos abater o leitão. Por favor, sem drama. Quem quiser ver, siga o chef. Que não quiser, vá tomar um banho de mar." Alguns acompanharam o chef, mas a maioria me acompanhou até o mar.

A fazenda TAO é o coração de todo o projeto. Seguindo as estratégias da permacultura é produzido todo o alimento necessário para abastecer as expedições e também os funcionários. Um modelo auto sustentável que visa não apenas beneficiar a empresa, mas também as comunidades pesqueiras dessa parte remota de Palawan, que constantemente sofrem com tufões e com os efeitos da sobrepesca. Fomos guiados por toda a área para conhecer as plantações de legumes, verduras e frutas, criação de porcos, aves e até mesmo peixes, a mais recente empreitada da fazenda. Nos despedimos desse lugar incrível com um brinde de jungle juice dentro do mar antes de embarcar no Emerson 7. Apesar de haver um belo acampamento na fazenda, nosso pernoite seria em uma outra ilha perto dali.

(FOTO: Clarissa Ferreira | Vôlei na praia antes de embarcar)

As noites da expedição eram tão divertidas quanto os dias. Houve noites de papo em volta da fogueira e noites embaladas com jogos de carta que só servem para fazer todo mundo beber. Jimboy e Dhong, seu guia assistente, se empenhavam em manter o nível de energia alto e estavam sempre por perto conversando, jogando, rindo. Dhong, aliás, é um exemplo da estrutura competente da empresa que oferece um plano de carreira aos jovens que entram para a TAO. Ele começou como ajudante geral e hoje está treinando com Jimboy para também se tornar líder de expedição. A mesma motivação e aspiração têm seus outros companheiros de tripulação. Menos Harry, que parece feliz em continuar sendo o mascote do barco.

(FOTO: André Garcia | Harry, the seadog)

(FOTO: Clarissa Ferreira | Percurso da expedição)

O fim da viagem se aproximava e o sentimento geral era de querer parar o tempo. Ninguém tinha pressa de chegar em El Nido, nosso destino final. Nenhum de nós parecia cansado de tomar banho de balde, nem da falta de privacidade ou das idas ao banheiro no meio da noite escura. Enquanto fazíamos o último lanche a bordo, um sashimi de atum pescado na hora, e degustávamos a última dose de jungle juice, um certo clima melancólico pairava no grupo. Em seu último brinde, Jimboy resumiu com perfeição o que haviam sido nossos últimos cinco dias: "Obrigado por manterem sempre o bom humor e alto astral. Essa não é uma viagem para qualquer um. Tudo é mais difícil, rústico, imprevisível e cansativo. Mas pensem que as queimaduras de sol e de água viva, os arranhões e cortes no pé, as picadas de mosquito, tudo isso vai passar dentro de alguns dias. Mas as memórias dessa expedição ficarão pra sempre com vocês."

Desembarcamos no porto de El Nido onde tuktuks, que faziam um barulho excessivo para nossos ouvidos já acostumados com o silêncio, dispersou o grupo levando cada um para seu hotel. Mas, pelo jeito, ainda não estávamos prontos para despedidas. Algumas horas depois, estávamos todos, turistas e tripulação, dividindo pizzas, cervejas e histórias em um restaurante da cidade.

(FOTOS: Clarissa Ferreira | Refeições da expedição)

(FOTO: Tripulação e grupo a bordo do Emerson 7)

(FOTO: Nós e o líder da expedição, Jimboy)

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COMO PLANEJAR SUA VIAGEM:

As expedições TAO duram cinco dias e quatro noites e percorrem o percurso Corón - El Nido e vice-versa. Nós preferimos terminar nossa jornada em El Nido, que oferece uma melhor infra estrutura de hotéis e restaurantes. Depois de cinco dias no mar, um certo conforto cai bem. Mas tudo depende do itinerário do resto da sua viagem. Tanto Corón quanto El Nido tem vôos para Manila e também ônibus para Puerto Princesa e Port Barton.

Para saber as datas de partida das expedições e fazer reservas basta acessar o site do projeto: TAO PHILIPPINES.

COMO SE PREPARAR PARA SUA VIAGEM:

Você vai levar toda sua bagagem no barco, mas não vai querer mexer nela toda hora, acredite. Leve duas dry bags para deixar com você no deque, uma maior com o que irá precisar usar nos acampamentos e outra menor com protetor, câmera, celular, canga, etc.

Como você vai passar o dia todo entrando e saindo da água, se preocupe em levar roupa apenas para o pernoite nos acampamentos (peças leves que te protejam dos mosquitos). Canga e toalha são essenciais no barco, assim como óculos escuros. Uma rashguard, aquelas camisetas de lycra usadas para surf e mergulho, é altamente recomendável para se proteger do sol durante snorkel.

É possível comprar tudo isso nas lojinhas de Corón e de El Nido e também nas duas sedes da TAO.

Confira a LISTA COMPLETA do que levar para a expedição e lembre-se de que não há como comprar nada pelo caminho.

Boa viagem!

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